O GANCHO DO DIA
Quem nunca acordou pensando “nunca mais eu bebo” depois de uma noite de exagero?
Agora a pergunta que eu quero colocar na sua cabeça é outra:
A ressaca é só castigo moral… ou é um sinal biológico bem claro de que o corpo entrou em pane temporária?
O artigo que guia a coluna de hoje é “Alcohol Hangover: Mechanisms and Mediators”, um clássico de revisão que destrincha o que é ressaca, quais mecanismos estão por trás dela e por que, mesmo tão comum, ainda é pouco estudada.PMC
Os autores mostram que a ressaca não é um fenômeno simples. Ela nasce da soma de:
- efeitos diretos do álcool (desidratação, irritação gastrointestinal, alterações de glicose, sono e ritmo circadiano),
- um “mini” quadro de abstinência aguda,
- metabólitos tóxicos,
- e até de substâncias não alcoólicas presentes nas bebidas, como metanol e outros congêneres.PMC
E o mais incômodo: apesar de tudo isso, quase nenhum “remédio de ressaca” que a gente ouve por aí foi testado seriamente em ensaio clínico.PMC
O MERGULHO SIMPLIFICADO
1. O que é, de fato, uma ressaca?
A definição técnica do artigo é bem objetiva: ressaca é o conjunto de sintomas físicos e mentais desagradáveis que aparecem depois de um episódio de ingestão pesada de álcool, geralmente quando o nível de álcool no sangue está caindo e costuma estar zero quando os sintomas estão no pico.PMC
Sintomas típicos (Tabela 1):PMC
- Constitucionais: fadiga, fraqueza, sede.
- Dor: cefaleia, dor muscular.
- Gastrointestinais: náusea, vômito, dor abdominal.
- Sono/ritmos: sono curto, sono ruim, alteração de REM.
- Sensoriais: vertigem, intolerância a luz e som.
- Cognitivos: queda de atenção e concentração.
- Humor: ansiedade, irritabilidade, humor deprimido.
- Ativação simpática: tremor, sudorese, taquicardia, aumento de pressão sistólica.
Ela começa poucas horas após parar de beber, piora quando o álcool zera no sangue e pode durar até 24 horas.PMC
Uma curiosidade importante: cerca de 75% das pessoas que bebem até a intoxicação relatam ressaca pelo menos algumas vezes, mas há grandes variações individuais – alguns fazem ressaca com poucas doses, outros quase nunca, mesmo bebendo pesado.PMC
2. O que o álcool faz direto no corpo durante a “festa”?
O artigo divide os mecanismos diretos em alguns blocos bem didáticos.PMC
a) Desidratação e eletrólitos
- Álcool é diurético: inibe o hormônio antidiurético (ADH), aumentando a produção de urina.
- Com ~50 g de álcool (cerca de 4 doses) em 250 mL, a pessoa pode eliminar até 600–1.000 mL de água em poucas horas.PMC
- Vômitos, sudorese e diarreia podem somar mais perdas.
Resultado: sede, fraqueza, tontura – a “secura” clássica da ressaca.
b) Irritação gastrointestinal
- O álcool irrita estômago e intestino, causa gastrite, retarda esvaziamento gástrico, aumenta secreção de ácido, enzimas pancreáticas e intestinais.PMC
- Isso explica boa parte da náusea, dor abdominal e vômitos do dia seguinte.
c) Metabolismo e glicose
- O metabolismo do álcool favorece acúmulo de gordura no fígado (esteatose) e de ácido láctico (acidose láctica).
- Isso pode inibir a produção de glicose, especialmente em quem bebe muito e come pouco por dias.PMC
- Hipoglicemia contribui para fadiga, fraqueza e alteração de humor – e é um perigo especial em diabéticos.
d) Sono e ritmos biológicos (“jet lag alcoólico”)
- Álcool até ajuda a dormir rápido, mas piora a qualidade do sono: encurta duração, reduz REM, aumenta sono profundo de forma desorganizada e favorece insônia de rebote.PMC
- Perturba o ritmo circadiano de temperatura corporal, secreção de hormônio de crescimento e cortisol.
- Na prática, é como causar um jet lag químico: você dorme, mas acorda mais cansado.
3. Ressaca é um “mini abstinência”?
O artigo defende que sim, pelo menos em parte.PMC
Depois de repetidas exposições ao álcool, o cérebro se adapta:
- diminui receptores GABA (inibitórios)
- aumenta receptores de glutamato (excitadores)
Isso compensa a ação depressora do álcool enquanto ele está presente. Quando o álcool sai de cena, o sistema fica em “overdrive” excitado, com hiperatividade simpática – tremor, taquicardia, sudorese, ansiedade.PMC
O interessante é que vários itens da escala CIWA-Ar (clássica de abstinência alcoólica) também aparecem na ressaca: náusea, tremor, sudorese, ansiedade, cefaleia e distúrbios sensoriais.PMC
E tem um detalhe que todo mundo já observou empiricamente: beber de novo reduz temporariamente o desconforto da ressaca, assim como alivia abstinência em dependentes – mais um argumento de que compartilham mecanismos.PMC
4. O papel dos metabólitos e dos “companheiros de copo”
Não é só o etanol que pesa na história.
a) Acetaldeído
- O etanol vira acetaldeído (via álcool desidrogenase) e depois acetato (via aldeído desidrogenase).PMC
- Acetaldeído é reativo, liga em proteínas e pode causar rubor, taquicardia, sudorese, náusea e mal-estar.
- Em quem tem variantes genéticas de ALDH (metaboliza pior), pequenas doses já causam reação intensa.
- Embora o acetaldeído livre não esteja presente no sangue quando o álcool já zerou, seus efeitos podem se prolongar e contribuir para o quadro.
b) Congêneres – especialmente metanol
- Bebidas alcoólicas não têm só etanol: trazem outros compostos biologicamente ativos, os congêneres, que ajudam no sabor, cor, aroma (whisky, conhaque, vinho tinto têm mais; vodka/gin, menos).PMC
- Estudos mostram que bebidas “mais puras” (vodka, gin) geram menos ressaca do que as ricas em congêneres (whisky, brandy, vinho tinto), embora nenhuma seja “imune”.PMC
- Um congener bem importante é o metanol, que, em pequenas quantidades, também é metabolizado a formaldeído e ácido fórmico. Mesmo em doses muito menores que num envenenamento, pode piorar sintomas de ressaca.PMC
c) Outros fatores
- Tabagismo, privação de sono, jejum, personalidade e histórico familiar de alcoolismo também modulam a experiência de ressaca e sua intensidade.PMC
IMPLICAÇÕES E CHAMADA
O que eu tiro desse artigo para a prática (e para nossas conversas francas com pacientes e amigos):
- Ressaca não é frescura, é fisiologia gritando.
Ela aponta para desidratação, irritação gastrointestinal, bagunça de glicose, sono destruído, hiperatividade simpática e possivelmente um “mini” quadro de abstinência. Não é algo neutro para o organismo. - Não existe cura milagrosa de ressaca testada seriamente.
A maioria das “receitas” populares nunca passou por ensaio clínico decente. O que temos, na vida real, é prevenção: ritmo, quantidade, hidratação, comer junto, escolher melhor o tipo de bebida – e, às vezes, simplesmente não beber. - Para quem trabalha, dirige ou toma decisões críticas, o “dia seguinte” importa.
Mesmo com álcool zero no sangue, algumas pessoas apresentam queda de desempenho em tarefas complexas – incluindo simulação de voo em pilotos militares, como a própria revisão lembra.PMC
Minha leitura final: entender a ressaca em detalhe não é para “ajudar a beber melhor”, mas para explicar com mais clareza o custo biológico de cada episódio de abuso – e usar isso como ferramenta de educação em saúde, especialmente com jovens.
Essa foi a nossa dose de ciência de hoje na coluna de Inovação Médica.
Agora eu quero ouvir você: na sua experiência clínica (ou pessoal), ressaca é vista como um alerta ou como parte “normal” da socialização? Você acha que entender os mecanismos ajuda a mudar comportamento? Deixe sua opinião nos comentários e volta amanhã – seguimos traduzindo fisiologia em decisões do dia a dia.
Fonte:
Swift R, Davidson D. Alcohol Hangover: Mechanisms and Mediators. Alcohol Health Res World. 1998;22(1):54–60. Disponível em: PMC. PMC





2 Comentários
O mais certo é não consumir alco
Pois é, Edimilton, seria o melhor mesmo!