O GANCHO DO DIA
A gente mal tinha se acostumado a chamar o T-DM1 de “padrão ouro” pós-neoadjuvância no HER2-positivo inicial… e já chega um NEJM dizendo, na prática:
dá para fazer melhor – e bem melhor.
Estou falando do DESTINY-Breast05, recém-publicado no New England Journal of Medicine, que comparou trastuzumab deruxtecana (T-DXd) com trastuzumab emtansina (T-DM1) em pacientes com câncer de mama HER2+ inicial, de alto risco, com doença invasiva residual após tratamento neoadjuvante.PubMed+1
O número que gruda na cabeça é este:
- 3 anos de sobrevida livre de doença invasiva (iDFS)
- 92,4% com T-DXd
- 83,7% com T-DM1
- redução relativa de 53% no risco de recidiva invasiva ou morte (HR 0,47).PubMed+1
Hoje eu quero destrinchar o que isso significa na prática da mastologia/oncologia, sem esquecer o “porém” importante: toxicidade pulmonar (ILD).
O MERGULHO SIMPLIFICADO
1. Quem são esses pacientes – e por que eles importam tanto?
O estudo focou exatamente naquele grupo que mais deixa a gente desconfortável no consultório:PubMed+1
- Câncer de mama HER2-positivo inicial,
- que recebeu quimio neoadjuvante baseada em taxano + anti-HER2,
- foi operado,
- e ainda assim ficou com doença invasiva residual na mama e/ou axila,
- com doença inicialmente N+ ou localmente avançada (alto risco clínico).
Sabemos, desde KATHERINE, que doença residual pós-neoadjuvância em HER2+ é quase um “sinal vermelho” de recidiva futura. O T-DM1 já tinha melhorado muito esse cenário; agora o DESTINY-Breast05 pergunta:
se em vez de T-DM1 nesse cenário, usarmos T-DXd, dá para subir ainda mais a curva de cura?
Spoiler: dá, mas com custo de toxicidade que não dá para ignorar.
2. O desenho em linguagem de consultório
O DESTINY-Breast05 foi um fase 3, aberto, internacional, com 1635 pacientes randomizadas 1:1:PubMed+1
- T-DXd 5,4 mg/kg EV a cada 3 semanas (n=818)
- T-DM1 3,6 mg/kg EV a cada 3 semanas (n=817)
Depois da cirurgia, as pacientes recebiam cerca de 1 ano de terapia pós-neoadjuvante com um dos dois ADCs.
Endpoints:
- Primário: sobrevida livre de doença invasiva (iDFS)
- Secundário-chave: DFS (incluindo eventos não invasivos e segundos tumores primários)
- Outros: intervalo livre de metástases à distância, intervalo livre de metástases cerebrais, sobrevida global (ainda imatura) e segurança.PubMed+2OC Academy+2
Pensa assim: é a “terceira linha” do intensivo curativo HER2+ inicial – depois de quimio + anti-HER2 neoadjuvante e cirurgia, é a última grande chance de fechar a porta para a recidiva.
3. O que o estudo mostrou em eficácia?
Aqui vem a parte que faz esse paper entrar na categoria “practice changing”.
Com ~30 meses de seguimento mediano em ambos os braços:PubMed+1
- Eventos invasivos ou morte
- 6,2% no grupo T-DXd (51 pacientes)
- 12,5% no grupo T-DM1 (102 pacientes)
- HR 0,47 (IC 95% 0,34–0,66; p<0,001)
- iDFS em 3 anos
- 92,4% com T-DXd
- 83,7% com T-DM1
- DFS em 3 anos (incluindo DCIS, segundos primários etc.)
- 92,3% com T-DXd
- 83,5% com T-DM1
- HR igualmente 0,47 (IC 95% 0,34–0,66; p<0,001).PubMed+1
Além disso, análises secundárias e releases complementares destacam:OC Academy+2OC Academy+2
- benefício consistente em subgrupos principais (idade, status nodal, subtipo hormonal, uso prévio de pertuzumabe etc.);
- redução clinicamente relevante no risco de metástases cerebrais, um ponto de dor histórico no HER2+.
A analogia que me vem à cabeça é: se o T-DM1 já tinha nos dado um colete à prova de balas mais grosso nesse cenário, o T-DXd está colocando uma placa extra, reduzindo pela metade a chance de levar um tiro invasivo nos primeiros 3 anos.
4. E a conta da toxicidade – principalmente pulmonar?
A parte que obriga a conversa séria é a segurança.
Pelo abstract e pelos resumos independentes, o perfil ficou assim:PubMed+2OC Academy+2
- T-DXd
- efeitos mais comuns: náusea (71,3%), constipação (32%), neutropenia (31,6%), vômitos (31%);
- toxicidade global predominantemente gastrointestinal e hematológica;
- doença pulmonar intersticial/pneumonite (ILD) adjudicada e relacionada à droga em 9,6% das pacientes, com 2 óbitos atribuídos a ILD.
- T-DM1
- efeitos mais comuns: aumento de AST (50,2%), aumento de ALT (45,3%), trombocitopenia (49,8%);
- perfil mais “hepato–hematológico” conhecido.
Outras análises externas apontam: maior taxa de eventos grau ≥3 e de descontinuação no braço T-DXd em relação ao T-DM1, reforçando que a troca de padrão não é “de graça” em termos de tolerabilidade.OC Academy+2OC Academy+2
Em resumo: o benefício em iDFS é enorme, mas ILD entra oficialmente como preço a ser monitorado com lupa – especialmente em um cenário de intenção curativa.
IMPLICAÇÕES E CHAMADA
Como eu leio o DESTINY-Breast05 hoje, sentado na cadeira da “prática real”:
- Em termos de eficácia, T-DXd claramente destrona o T-DM1 como pós-neoadjuvante padrão para câncer de mama HER2+ inicial de alto risco com doença residual invasiva – pelo menos do ponto de vista científico.PubMed+2Biotech Spain+2
- Em termos de segurança e implementação, vamos precisar de:
- equipes treinadas para reconhecer precocemente ILD/pneumonite,
- protocolos claros de investigação de sintomas respiratórios,
- rotinas de imagem e interrupção imediata da droga na suspeita,
- discussão honesta com a paciente sobre benefício x risco em contexto curativo.
- Em termos de sistema de saúde, vem pela frente o pacote clássico:
- aprovação regulatória específica nesse setting,
- incorporação em guidelines (ESMO, ASCO, NCCN) e protocolos nacionais,
- discussão de custo e acesso em diferentes realidades (incluindo SUS e suplementar).
Se eu tivesse que resumir em uma frase para levar para a reunião de tumor board:
“No HER2+ inicial de alto risco com doença residual, o DESTINY-Breast05 coloca o T-DXd como novo padrão pós-neoadjuvante em eficácia, ao custo de uma toxicidade pulmonar que exige monitorização ativa e bem treinada.”
Essa foi a nossa dose de ciência de hoje na coluna de Inovação Médica.
Agora eu quero ouvir você: no seu serviço, como você enxerga a transição de T-DM1 para T-DXd nesse cenário – entusiasmo total, cautela por causa de ILD, preocupação com custo, tudo isso junto? Deixe sua opinião nos comentários e volta amanhã – seguimos acompanhando, de perto, cada virada de chave no tratamento do câncer de mama HER2+.
Fonte:
Loibl S, Park YH, Shao Z, et al. Trastuzumab Deruxtecan in Residual HER2-Positive Early Breast Cancer. N Engl J Med. 2025 Dec 10. doi: 10.1056/NEJMoa2514661.
NEJM – Trastuzumab Deruxtecan in Residual HER2-Positive Early Breast Cancer PubMed+1




