O GANCHO DO DIA
Se uma pessoa chegar ao pronto-socorro dizendo que “bebeu um álcool estranho, barato, de procedência duvidosa” e, algumas horas depois, começar a enxergar tudo embaçado e a hiperventilar… você pensaria em metanol na hora?
A grande referência de hoje é o capítulo “Methanol Toxicity” do StatPearls/NCBI Bookshelf, atualizado em fevereiro de 2025. Ele faz um apanhado completo sobre etiologia, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento da intoxicação por metanol, com foco em prática clínica e trabalho em equipe.CNIB
Isso tudo ganha um peso especial no nosso contexto: nos últimos anos, vários países das Américas – incluindo o Brasil – vêm registrando surtos de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas, com dezenas a centenas de casos e alto número de óbitos, a ponto de a OPAS/OMS emitir alerta epidemiológico específico em 2025.OPAS+1
Ou seja: isso deixou de ser um tema de toxicologia “raro” para virar assunto de emergência em saúde pública – e de plantão clínico comum.
O MERGULHO SIMPLIFICADO
1. O que é metanol e onde ele se esconde?
O capítulo lembra que o metanol (CH₃OH) é um álcool tóxico, parte do grupo dos “álcoois tóxicos” (metanol, etilenoglicol, dietilenoglicol, isopropanol). Entre eles, o metanol está entre os mais perigosos.CNIB
Ele aparece em:
- fluido de limpador de para-brisa
- alguns tipos de anticongelante e fluido de freio
- solventes e produtos industriais
- combustível para aquecer comida
- perfumes e outros produtos de uso domésticoCNIB+1
E, cada vez mais grave para nós:
em bebidas alcoólicas adulteradas ou destiladas de forma inadequada, gerando surtos de intoxicação coletiva.CNIB+2OPAS+2
Principais vias de exposição:
- ingestão (acidental, abuso, tentativa de suicídio, bebida contaminada);
- inalação e absorção dérmica em cenários industriais, menos frequentes.CNIB
Grupos de risco:
- crianças pequenas (ingestão acidental);
- pessoas com transtorno por uso de álcool;
- tentativas de autoextermínio;
- populações expostas a “álcool barato” de procedência duvidosa.CNIB+2OPAS+2
2. O que acontece dentro do corpo? Do “álcool” ao veneno
A chave da gravidade não é o metanol em si, mas o que o fígado faz com ele.
O texto descreve assim:CNIB
- O metanol é rapidamente absorvido e distribuído na água corporal total.
- No fígado (e já na mucosa gástrica), a álcool desidrogenase converte metanol em formaldeído, e depois a aldeído desidrogenase transforma formaldeído em ácido fórmico.
- O ácido fórmico e seu sal (formato) se acumulam porque são eliminados lentamente.
É aqui que o problema explode:
- o ácido fórmico gera acidose metabólica com ânion gap elevado;
- inibe a cadeia respiratória mitocondrial, piorando a acidose (inclusive láctica);
- causa lesão direta de retina e núcleos da base (principalmente gânglios da base, com necrose bilateral característica).CNIB+2Eoftalmo+2
Pense no metanol como um “cavalo de Troia”:
entra como um “álcool aparentemente inofensivo”, mas libera ácido fórmico lá dentro, que é o verdadeiro veneno celular.
3. Como o paciente chega: a fase enganosa e os sinais de alerta
O quadro clínico clássico descrito no StatPearls tem uma fase de latência traiçoeira:CNIB+1
- nas primeiras 12–24 horas:
- paciente pode estar assintomático ou levemente “bêbado”;
- depois:
- náuseas, vômitos, dor abdominal;
- hiperventilação (compensando a acidose);
- rebaixamento de consciência;
- sinais de choque nos casos graves.
O “cartão de visita” que deveria acender sirene na cabeça do médico:
- sintomas visuais
- visão borrada, escotomas, “ver halos” ao redor das luzes, fotofobia;
- ao fundo de olho: papiledema, hiperemia de disco óptico, defeitos pupilares;CNIB+1
Laboratoriamente, o capítulo reforça o padrão:CNIB
- início: gap osmolar elevado (muito metanol ainda não metabolizado);
- mais tarde: anion gap aumentado + acidose metabólica importante, enquanto o gap osmolar tende a diminuir;
- em muitos serviços, a dosagem de metanol não está disponível ou demora horas/dias – a decisão é baseada no conjunto clínica + gasometria + anion gap ± gap osmolar.
Mensagem central: em qualquer paciente com acidose metabólica com anion gap elevado, história suspeita e sintomas visuais, metanol deve entrar alto na lista de hipóteses.
4. Como é o tratamento (em linhas gerais, sem receita de bolso)
O StatPearls organiza o manejo em quatro pilares principais:CNIB
- Suporte e ressuscitação
- estabilização de via aérea, ventilação e circulação;
- correção cuidadosa da acidose, distúrbios eletrolíticos, monitorização intensiva nos casos graves.
- Bloqueio da formação de metabólitos tóxicos
- uso de fomepizol (preferencial) ou etanol como inibidores competitivos da álcool desidrogenase, para impedir que o metanol vire ácido fórmico;
- esses fármacos não “desintoxicam” o que já foi metabolizado, mas impedem que piore – quanto mais cedo, melhor.
- Hemodiálise
- indicada amplamente em metanol, mais do que em alguns outros álcoois tóxicos;
- objetivo: remover metanol e metabólitos, corrigir acidose rapidamente;
- recomendada em casos de acidose grave, sintomas neurológicos importantes, alterações visuais, instabilidade hemodinâmica, ou concentração elevada de metanol (quando disponível).CNIB
- Medidas complementares
- folato pode ser usado como adjuvante, pois auxilia a metabolizar formiato em CO₂ e água (benefício teórico/modesto);
- manejo de complicações: lesão renal aguda, pancreatite, sequelas neurológicas.CNIB
O capítulo é categórico: reconhecimento precoce + início rápido de inibidor de álcool desidrogenase + hemodiálise quando indicada mudam radicalmente o prognóstico. Pacientes tratados antes da formação significativa de metabólitos tóxicos podem evoluir muito bem; os que chegam tardiamente correm risco alto de cegueira, sequelas neurológicas e morte.CNIB+1
Importante: nada disso substitui protocolos locais, bula nem contato com toxicologia / CIATox. É um resumo conceitual, não uma “receita de tratamento” para uso leigo.
IMPLICAÇÕES E CHAMADA
Minha leitura, juntando o capítulo do StatPearls com o cenário atual nas Américas, é simples e incômoda:
- Metanol saiu dos livros e entrou no noticiário.
Casos por bebidas adulteradas, inclusive no Brasil, mostram que esse não é um tema limitado a indústria ou tentativas de suicídio – é problema de saúde pública que precisa de vigilância sanitária, educação em massa e protocolos bem definidos.OPAS+1 - Para o clínico, o “pulo do gato” é suspeitar cedo.
- Bebida de procedência duvidosa + visão borrada + acidose com anion gap aumentado = metanol até prova em contrário.
- Esperar pela confirmação laboratorial pode ser tarde demais; a orientação do capítulo é iniciar tratamento quando a suspeita é forte e discutir com toxicologia / nefro.
- Para a população, a mensagem é dura, mas direta:
- “Álcool barato e sem origem confiável” não é economia, é roleta russa – com risco real de cegueira permanente e morte.
Minha síntese: metanol é um veneno celular poderoso, mas não é invencível quando reconhecido a tempo. A diferença entre uma intoxicação grave que termina em óbito e um caso bem resolvido, muitas vezes, está em horas de atraso na suspeita e no início da terapêutica dirigida.
Essa foi a nossa dose de ciência de hoje na coluna de Inovação Médica.
Quero saber de você: no seu serviço, já houve suspeita ou confirmação de intoxicação por metanol? Como é o acesso a fomepizol, hemodiálise e suporte de toxicologia na sua região? Deixe sua experiência nos comentários e volta amanhã – seguimos acompanhando de perto essa interseção entre clínica, toxicologia e saúde pública.
Fonte principal:
Ashurst JV, Nappe TM. Methanol Toxicity. StatPearls [Internet]. NCBI Bookshelf, atualizado em 6 fev 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK482121/ CNIB




