O GANCHO DO DIA
Você já sentiu um aperto físico no peito ao ver alguém se machucando? Ou teve dificuldade de assistir cenas de dor em filmes e até em vídeo de cirurgia?
A ciência hoje está dizendo: isso não é frescura, é dor empática – e tem circuito próprio no cérebro, com potencial terapêutico real.
O artigo que eu trago hoje, publicado na Neuropharmacology em 2025, faz um mapa detalhado dos circuitos neurais e mecanismos terapêuticos da dor empática.PubMed+1
Os autores juntam achados de neuroimagem em humanos e de modelos em roedores, e chegam em duas mensagens fortes:
- Dor empática envolve um circuito bem definido – não é só “imaginação”.
- Modular esse circuito pode ajudar tanto em doenças psiquiátricas com déficit de empatia (autismo, psicose, esquizofrenia) quanto em manejo da dor crônica.PubMed+1
O MERGULHO SIMPLIFICADO
1. O que é dor empática, na prática?
Os autores definem dor empática como a experiência de “sentir” a dor do outro, com ativação de circuitos semelhantes aos da dor própria, mesmo sem dano tecidual real.ScienceDirect+1
Alguns pontos-chave:
- Essa resposta inclui três dimensões:
- sensório-motora (o corpo se prepara, você se encolhe, vira o rosto);
- afetiva (angústia, compaixão, desconforto);
- cognitiva (entender racionalmente o que o outro está passando).ScienceDirect
- fMRI mostra que, ao ver outra pessoa em dor, ativamos regiões da chamada “matriz da dor”, especialmente:
- córtex cingulado anterior (ACC)
- ínsula anterior
- amígdala e até cerebelo, em alguns estudos.ScienceDirect+1
Uma analogia que eu gosto: a dor empática é como um Wi-Fi emocional – o corpo do outro é o roteador, e o seu cérebro recebe o sinal em áreas de dor, emoção e decisão.
2. Os circuitos finos: do locus coeruleus ao estriado
A parte mais “nerd” (e fascinante) do artigo é o detalhamento dos circuitos. Em modelos animais de dor empática – com um roedor “demonstrador” sentindo dor e um “observador” assistindo – os autores destacam conexões específicas:ScienceDirect+1
- LC → mPFC (locus coeruleus para córtex pré-frontal medial)
- Via noradrenérgica, ligada à vigilância, atenção ao estímulo e resposta ao estresse.
- ACC → NAc (cingulado anterior para núcleo accumbens)
- Integra dor, motivação e recompensa – ajuda a explicar por que aliviar a dor do outro pode ser “recompensador” e favorecer comportamento pró-social.
- IC → BLA (ínsula → amígdala basolateral)
- Junta sensação visceral/afetiva com memória emocional de medo e ameaça.
- VTA → NAc e VTA → LHb (área tegmentar ventral para accumbens e habenula lateral)
- Circuitos clássicos de recompensa e aversão, modulando o quanto a dor do outro é vivida como insuportável ou tolerável.ScienceDirect
Em linguagem de consultório:
a dor empática nasce em um circuito social-sensorial (ver/saber que o outro sofre), passa por regiões de emoção e memória, e desemboca em centros de motivação e tomada de decisão – é isso que, biologicamente, nos empurra para ajudar, evitar, fugir ou congelar.
3. Quando a empatia falha – ou sobra
O artigo conecta esses circuitos a transtornos em que a empatia está alterada:PubMed+1
- Autismo
- Dificuldades em leitura e resposta a estados emocionais alheios;
- Estudos mostram padrões atípicos de ativação nessas redes de empatia/dor.
- Psicose e esquizofrenia
- Alterações de teoria da mente e empatia cognitiva;
- Possível hipo ou hiperativação em circuitos de ACC, ínsula e amígdala.
- Outros quadros com empatia distorcida (como alguns transtornos de personalidade) também entram na conversa, embora o artigo foque mais nos grandes grupos neuropsiquiátricos.
Interessante: os autores sugerem que modular a dor empática – para cima ou para baixo – pode ajudar a tratar sintomas nucleares nesses pacientes, por exemplo:
- aumentando sensibilidade empática em quem tem déficit;
- reduzindo sobrecarga empática em quem “absorve” dor demais e entra em burnout, como alguns profissionais de saúde.PubMed+1
4. E as possibilidades terapêuticas?
A revisão discute várias estratégias que conversam com esses circuitos:PubMed+1
- Neurofarmacologia dirigida
- Alvos noradrenérgicos (LC→mPFC), dopaminérgicos (VTA→NAc), glutamatérgicos e moduladores de neuropeptídeos podem, em tese, ajustar a responsividade empática – ainda muito no terreno pré-clínico.
- Neuromodulação não invasiva
- TMS, tDCS focados em ACC, mPFC e ínsula são citados como caminhos promissores para regular redes de dor empática e emoção – em linha com o que já vemos surgir em depressão, dor crônica e TEPT.
- Intervenções comportamentais
- Treinos de empatia, compaixão e regulação emocional provavelmente atuam nessas mesmas redes, de forma “top-down” – algo que ainda precisa ser testado com protocolos mais padronizados e imagem funcional acoplada.
E tem um ponto que eu achei especialmente elegante: usar o conhecimento da dor empática para tratar dor física.
A lógica é:
- dor crônica não é só sinal periférico;
- envolve emoções negativas, isolamento social e leitura constante da dor do outro (e de si mesmo);
- se entendermos melhor como o cérebro codifica e regula dor alheia, podemos desenhar terapias que reduzam o sofrimento subjetivo do paciente, mesmo sem “zerar” o input periférico.PubMed+1
IMPLICAÇÕES E CHAMADA
O que eu levo desse artigo para a prática e para a conversa com pacientes e equipes?
- Empatia não é só virtude moral, é circuito neurobiológico.
Isso ajuda a tirar a discussão do campo da culpa (“você é frio”, “você sente demais”) e levar para: “seu cérebro está calibrado de tal jeito – e podemos tentar modulá-lo”. - Dor empática é ponte entre psiquiatria e dor crônica.
Estratégias que cuidam de vínculo, suporte social e regulação emocional não são “perfumaria”: elas conversam diretamente com redes de ACC, ínsula, amígdala e estriado. - Futuro próximo: tratamentos que miram a empatia como alvo terapêutico.
De fármacos mais específicos a protocolos de TMS e programas de treinamento de compaixão, a tendência é que empatia saia do discurso filosófico e entre, formalmente, na prescrição.
Minha leitura pessoal: entender dor empática é entender porque o sofrimento é contagioso – e como podemos usar esse contágio a favor da cura, não do esgotamento.
Essa foi a nossa dose de ciência de hoje na coluna de Inovação Médica.
Agora eu quero ouvir você: na sua prática, você sente mais gente “anestesiada” para a dor do outro ou profissionais e familiares em burnout de tanta dor empática? Como imagina usar esse tipo de conhecimento no dia a dia?



